Por que a Meta foi processada nos EUA — e o que isso tem a ver com o TikTok e a rolagem infinita?

 

Por que a Meta foi processada nos EUA — e o que isso tem a ver com o TikTok e a rolagem infinita?

Facebook, Instagram e TikTok usam recursos parecidos para prender a atenção dos usuários. Então por que a Meta acabou no centro de um processo tão grande nos Estados Unidos? A resposta é mais complexa do que parece.

Se você já abriu o Instagram para responder uma mensagem e, quando percebeu, estava assistindo a Reels há 40 minutos, provavelmente conhece o problema na prática.

A tela nunca diz claramente: “acabou por hoje”. Um vídeo termina, outro começa. Você desliza para cima, aparece outro. Depois outro. E outro.

Essa experiência, conhecida como rolagem infinita, tornou-se uma das características mais comuns das redes sociais modernas. Mas também passou a ser examinada por autoridades americanas que questionam se determinadas plataformas foram projetadas para manter crianças e adolescentes conectados por mais tempo do que pretendiam.

É nesse contexto que surgiu a grande disputa jurídica envolvendo a Meta, dona do Facebook e do Instagram.

Mas afinal, por que a Meta foi processada?

Em outubro de 2023, uma grande coalizão de procuradores-gerais estaduais dos Estados Unidos entrou com ações contra a Meta.

As autoridades alegaram que a empresa havia desenvolvido e utilizado recursos em Facebook e Instagram que poderiam estimular o uso compulsivo por crianças e adolescentes.

Entre os recursos citados estavam a rolagem infinita, notificações frequentes, reprodução automática, recomendações algorítmicas, mecanismos relacionados à validação social e outras características de design.

As autoridades também alegaram que a Meta teria enganado o público sobre os riscos dessas plataformas para usuários jovens.

Outro ponto importante envolvia a coleta e utilização de dados de crianças menores de 13 anos sem o consentimento parental exigido pela legislação americana.

Essas são alegações apresentadas pelas autoridades. Elas não devem ser tratadas automaticamente como fatos definitivamente comprovados contra a empresa.

E onde entra o TikTok nessa história?

Aqui está uma parte que costuma ser perdida nas discussões nas redes sociais: o TikTok também foi alvo de processos nos Estados Unidos.

Em outubro de 2024, a Califórnia e Nova York lideraram uma coalizão de 14 procuradores-gerais estaduais que apresentou ações contra o TikTok.

As autoridades acusaram a plataforma de utilizar recursos capazes de estimular o uso excessivo e compulsivo por jovens.

Entre os mecanismos apontados estavam justamente alguns dos elementos que muitas pessoas associam ao formato moderno do TikTok: reprodução automática, rolagem infinita, recomendações personalizadas, notificações, conteúdo temporário, curtidas, comentários e filtros de beleza.

Ou seja: a ideia de que “processaram a Meta, mas deixaram o TikTok de fora” não corresponde aos fatos.

Na realidade, existem processos diferentes, em momentos diferentes e com estratégias jurídicas diferentes.

Então por que parece que a Meta foi mais perseguida?

Uma das explicações está na cronologia.

A ação multies­tadual contra a Meta começou em 2023, enquanto uma grande ação coordenada contra o TikTok envolvendo 14 procuradores-gerais foi anunciada em 2024.

Além disso, a investigação e o processo contra a Meta ganharam uma dimensão particularmente grande porque envolveram Facebook e Instagram, duas das maiores plataformas sociais do mundo.

O caso também avançou durante anos até chegar ao julgamento federal em 2026.

Em junho de 2026, um tribunal rejeitou a tentativa da Meta de encerrar o processo antes do julgamento. Em agosto, o julgamento começou na Califórnia.

Isso fez com que o caso recebesse enorme atenção justamente no momento em que as discussões sobre segurança de crianças e adolescentes nas redes sociais estavam crescendo.

A Meta copiou o TikTok?

Essa é uma pergunta mais complicada.

É verdade que o TikTok mudou profundamente o padrão de consumo de conteúdo nas redes sociais. O formato baseado em vídeos curtos, tela cheia, reprodução automática e recomendações personalizadas tornou-se extremamente influente.

Depois do crescimento do TikTok, outras grandes plataformas passaram a investir fortemente em formatos semelhantes.

O Instagram lançou e expandiu os Reels, enquanto o YouTube fortaleceu os Shorts. Outras plataformas também adotaram feeds verticais de vídeos curtos.

Mas dizer simplesmente que “todos copiaram o TikTok” é uma simplificação.

A rolagem infinita, por exemplo, não nasceu com o TikTok. O conceito é anterior às redes sociais atuais e é frequentemente associado ao trabalho do designer Aza Raskin, que descreveu ter desenvolvido a técnica em 2006.

O que o TikTok fez foi combinar essa ideia com uma experiência extremamente eficiente de consumo de vídeos: um conteúdo ocupa praticamente toda a tela, começa automaticamente e o próximo aparece imediatamente após um simples movimento do dedo.

É essa combinação que tornou o modelo tão influente.

O verdadeiro problema pode não ser quem inventou

Imagine que alguém invente uma estrada muito rápida.

Depois, várias empresas constroem carros capazes de utilizá-la. Alguns carros são ainda mais rápidos que o primeiro.

Se acontecerem acidentes, a pergunta das autoridades não será necessariamente “quem inventou a estrada?”. Elas também vão analisar quem construiu os carros, como eles foram projetados e se as empresas ignoraram riscos conhecidos.

Com as redes sociais, acontece algo parecido.

A discussão jurídica não depende apenas de descobrir quem inventou determinada função. O ponto central é saber como a tecnologia foi utilizada, para quem foi direcionada, quais riscos eram conhecidos e quais medidas foram adotadas para reduzir esses riscos.

Por que a rolagem infinita chama tanta atenção?

O problema da rolagem infinita é simples de entender.

Quando uma página possui um fim, existe um sinal natural para o cérebro: “terminei”.

Com uma página que continua carregando conteúdo, esse sinal praticamente desaparece.

Você não precisa tomar uma nova decisão para continuar. Basta deslizar o dedo.

É uma pequena diferença de interação, mas pode mudar completamente a experiência.

O usuário não precisa dizer: “vou assistir a mais um vídeo”. O próximo vídeo simplesmente aparece.

E depois vem outro.

E outro.

Quando você percebe, aquela visita de cinco minutos virou meia hora.

O algoritmo também é parte da equação

A rolagem infinita sozinha não explica o sucesso do TikTok, Instagram ou YouTube Shorts.

Existe outro componente extremamente importante: o algoritmo de recomendação.

Em vez de simplesmente mostrar publicações das pessoas que você segue, essas plataformas conseguem selecionar conteúdos com base em diferentes sinais de comportamento.

Por exemplo, quanto tempo você permaneceu assistindo a determinado vídeo, se passou rapidamente para o próximo, se curtiu, comentou ou compartilhou um conteúdo pode ajudar o sistema a entender seus interesses.

O resultado é um feed que pode ficar cada vez mais personalizado.

E quanto mais interessante for o conteúdo apresentado, maior pode ser a vontade de continuar navegando.

O que as autoridades realmente estão questionando?

O debate não é simplesmente “redes sociais são ruins”.

O ponto jurídico é muito mais específico.

As autoridades americanas questionam se algumas empresas conscientemente utilizaram determinadas características de design para aumentar o tempo de permanência dos jovens, apesar dos riscos alegados.

Também questionam se as empresas foram transparentes sobre esses riscos e se adotaram medidas suficientes para proteger usuários menores de idade.

Esse detalhe é fundamental.

Uma empresa não necessariamente comete uma ilegalidade simplesmente porque seu aplicativo é divertido ou porque as pessoas passam muito tempo nele.

A questão é saber se determinadas práticas violam leis de proteção ao consumidor, privacidade infantil ou outras normas aplicáveis.

E a Meta foi condenada?

É preciso ter cuidado com essa palavra.

Em agosto de 2026, a Meta chegou a um acordo proposto com uma coalizão de 51 procuradores-gerais, envolvendo até US$ 17,1 bilhões e mudanças importantes no Facebook e Instagram.

O acordo ainda está sujeito à aprovação judicial.

Entre as mudanças previstas estão restrições relacionadas ao uso por menores, limitações a determinadas funcionalidades e medidas destinadas a reduzir o uso compulsivo.

Portanto, neste momento, é mais correto falar em acordo proposto do que simplesmente afirmar que a Meta foi condenada definitivamente após um julgamento com veredicto.

E o que aconteceu com o TikTok?

O TikTok também continua enfrentando ações nos Estados Unidos.

A ação liderada pela Califórnia em 2024 acusou a empresa de utilizar recursos como rolagem infinita, reprodução automática, notificações e recomendações de conteúdo para incentivar o uso excessivo entre jovens.

Em 2026, novas ações estaduais também continuaram avançando.

Em agosto de 2026, por exemplo, o procurador-geral da Pensilvânia anunciou uma ação contra o TikTok que inclui alegações relacionadas à “endless scrolling”, ou rolagem infinita, e aos efeitos do uso excessivo sobre jovens.

Portanto, ByteDance, empresa controladora do TikTok, não está simplesmente fora do radar das autoridades americanas.

Então existe um padrão em toda a indústria?

Essa talvez seja a parte mais interessante da história.

O problema deixou de ser exclusivamente da Meta ou do TikTok.

Quando uma plataforma percebe que determinado formato aumenta o envolvimento dos usuários, outras empresas possuem um incentivo comercial para adotar características semelhantes.

É assim que uma função criada para melhorar a experiência do usuário pode se transformar em um padrão de mercado.

O debate atual, portanto, não é apenas sobre quem copiou quem.

É sobre qual modelo de tecnologia queremos aceitar quando crianças e adolescentes estão entre os usuários mais afetados.

O TikTok deveria ser tratado da mesma maneira que a Meta?

Não necessariamente da mesma maneira.

Cada processo precisa ser analisado de acordo com as provas, leis aplicáveis, condutas alegadas e decisões dos tribunais.

É perfeitamente possível que duas empresas utilizem recursos parecidos e, ainda assim, enfrentem processos com características jurídicas diferentes.

Isso não significa que uma empresa seja automaticamente inocente e outra culpada.

Significa apenas que o sistema judicial precisa analisar cada caso com base nas evidências disponíveis.

O que muda para os jovens?

Talvez a maior consequência dessas disputas seja uma mudança na forma como pensamos sobre aplicativos.

Durante muito tempo, a pergunta era simples: “o aplicativo funciona bem?”.

Agora existe outra pergunta importante: “ele foi projetado para respeitar o meu tempo?”

Essa diferença parece pequena, mas pode mudar o futuro das redes sociais.

Em vez de competir apenas para descobrir quem consegue prender o usuário durante mais tempo, as empresas podem ser pressionadas a oferecer mecanismos que permitam ao usuário sair com mais facilidade.

Perguntas frequentes

O TikTok inventou a rolagem infinita?

Não. A técnica é anterior ao TikTok e é frequentemente atribuída ao designer Aza Raskin, que diz ter desenvolvido o conceito em 2006. O TikTok, porém, ajudou a popularizar uma combinação de rolagem contínua, vídeo vertical, reprodução automática e recomendações algorítmicas.

A Meta foi processada por copiar o TikTok?

Não. Os processos contra a Meta não têm como fundamento simplesmente a acusação de copiar o TikTok. As autoridades alegaram que recursos de Facebook e Instagram contribuíam para uso compulsivo e poderiam prejudicar jovens.

O TikTok também foi processado nos Estados Unidos?

Sim. Diversos procuradores-gerais estaduais moveram ações contra o TikTok, incluindo alegações relacionadas à rolagem infinita, reprodução automática, notificações, recomendações algorítmicas e outros recursos.

A Meta já foi condenada definitivamente?

Em agosto de 2026, a Meta anunciou um acordo proposto com procuradores-gerais de vários estados, envolvendo até US$ 17,1 bilhões e mudanças nas plataformas. O acordo depende de aprovação judicial.

Por que as autoridades se preocupam tanto com a rolagem infinita?

Porque ela elimina um ponto natural de parada. Quando novos conteúdos continuam aparecendo automaticamente, o usuário pode permanecer na plataforma por mais tempo sem precisar tomar uma nova decisão consciente para continuar.

Conclusão

A história não é simplesmente “Meta copiou o TikTok e foi processada”. A realidade é mais interessante — e também mais complicada.

O TikTok não inventou sozinho todas as técnicas que utiliza. A rolagem infinita é anterior à plataforma e foi criada originalmente como uma solução de usabilidade.

O que mudou foi a combinação dessas ferramentas com algoritmos capazes de selecionar continuamente aquilo que provavelmente chamará a atenção do usuário.

Meta e TikTok acabaram chegando a diferentes momentos do mesmo debate: até onde uma empresa pode otimizar um produto para aumentar o tempo de uso quando seus usuários incluem crianças e adolescentes?

Essa pergunta ainda não tem uma resposta definitiva. Mas os processos nos Estados Unidos mostram que as autoridades já não estão tratando o design das redes sociais como uma simples questão de aparência ou conveniência.

O botão “próximo vídeo” parece pequeno. A indústria construída em torno dele é enorme.

Nota editorial: este conteúdo foi elaborado com base em informações disponíveis em fontes públicas e verificáveis. Informações sujeitas a alterações podem ser atualizadas posteriormente.

Fontes e informações adicionais

  • California Department of Justice — Office of the Attorney General
    Attorney General Bonta Secures Transformative $17 Billion Settlement with Meta — 25 de agosto de 2026.
  • New York Attorney General
    Attorney General James Secures Up to $17.1 Billion and Groundbreaking Reforms from Meta to Protect Children on Social Media — 26 de agosto de 2026.
  • California Department of Justice — Office of the Attorney General
    Attorney General Bonta, Attorney General James Lead Coalition Suing TikTok for Exploiting Young Users, Deceiving Public — 8 de outubro de 2024.
  • New York Attorney General
    Attorney General James Sues TikTok for Harming Children’s Mental Health — 8 de outubro de 2024.
  • California Department of Justice — Office of the Attorney General
    Attorney General Bonta: Any Federal Legislation to Protect Kids Online Must Allow States to Continue Critical Work in This Space — documento que confirma que as ações da Califórnia contra Meta e TikTok continuam relacionadas a alegações de design que estimula uso compulsivo.
  • Pennsylvania Office of Attorney General
    Attorney General Sunday Announces Lawsuit Against TikTok for Misrepresentations that Permit Age-13+ Rating in App Stores — 11 de agosto de 2026.
  • Minnesota Attorney General
    Attorney General Ellison defeats motion to dismiss in lawsuit against TikTok — 23 de março de 2026.
  • California Department of Justice — Office of the Attorney General
    Attorney General Bonta: Unredacted Federal Lawsuit Against Meta — 27 de novembro de 2023.

Comentários

  1. É interessante, olha eu queria ver tik Tok passar um sufoco, aliás, o que os chineses exibem aqui é algo que não passa no próprio país deles

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